Ainda o Carnaval vai no domingo e já pude constatar que esta é uma época especialmente favorável à biodiversidade. O pior é que a seguir vem a Quaresma e lá vai o mundo da cristandade começar a desbundar no peixe espada e noutras espécies cuja carne não se chama carne e são vítimas de pesca excessiva durante o ano todo. A Quaresma vai também apagar a festa da biodiversidade a que fiz referência acima. Refiro-me à abelha que se estava nas tintas para as aida raras flores do jardim e se agarrava sofregamente a um biberão de leite, às vacas que confraternizavam de copos de coca-coca, cerveja e sabe-se là que mais na mão (pormenor a ter em conta: em todos os exemplares de vaca as mãos tiham o polegar oponível aos restantes dedos) ou a um polícia com focinho de gato (não – prestei bem atenção – não era de cão, era de gato!).
Também passei por um rato Mickey e uma bruxa (Maga Patalógica? Não se via bem, como compreenderão…) num “amasso” de abalar a moldura do quadradinho. O episódio trouxe-me à memória um artigo que li há muitos anos na revista “Linha Geral” (alguém se lembra ou sabe o isso era?). O dito artigo malhava forte e feio no imperialismo, através da sua testa de ferro Walt Disney Corporation que acusava de formatar (à época não se usava esse termo) as mentes da criançada através de bandas desenhadas que apresentavam uma sociedade deturpada e assexuada onde não havia pais ou filhos mas tios e sobrinhos e Minnie ou Daisy/Margarida eram vagas namoradas cuja função se limitava a protagonizar comportamentos que eram estereótipos de uma visão machista da mulher. Enfim, era caso para os mandar a todos para o ovo que os pariu. Mickey e irmãos Metralha incluídos. Para a Disney, aquele “amasso” do tal parzinho era, obviamente, uma heresia e dei-lhes a minha benção: Aproveitem, meus filhos, que na quarta-feira já é Quaresma…
Nunca tal me tinha passado pela cabeça, confesso. Devo a As Vozes do Rio Pamano, de Jaume Cabré a chamada de atenção. Mais do que uma pedra, de bom ou mau gosto, mais do que uma homenagem, uma lápide funerária pode ser uma manifestação de censura, de tirania. Pode também ser um grito de rebeldia, de resistência, de justiça, de liberdade. Assim:
– Estou a preparar a lápide mais triste de todas as que fiz até hoje. Mil e novecentos e vinte e nove tracinho mil e novecentos e quarenta e três, quer dizer catorze anos. Ia fazer quinze. O assassino não tem o perdão de Deus. E tu, meu filho, lembra-te sempre dele e quando o céu for mais azul, se eu já tiver morrido, grava uma nova lousa ao Ventureta. Por muito mal que te corram as coisas, e mesmo que nenhum dos Venturas não te pague nem um tostão pela pedra que lhes fizeres. Chegará um dia em que o céu será mais azul, a Humanidade sorrirá e já não será pecado gravar o verdadeiro nome das pessoas nas pedras, Jaumet. Nessa altura tira do esconderijo o desenho que te vou fazer.
– E agora não lhe podemos pôr mais nada?
Só Família Esplandiu e sem acento. Não querem mais nada. Não lhes deixam pôr mais nada. Olha a ordem por escrito. Nem o nome de Joanet, nem sequer em castelhano. Família, só. E a cruz.
– E para a lousa a sério?
– Olha o que preparei.
– Porra! Uma cruz de gama alta.
– Claro. Merece-a.
– Sabes o que podias fazer, pai? Pôr-lhe um extra. O alcaide, se ainda não tiver morrido, nem se dará conta de que é um extra. Por exemplo, assim:
– Muito bem,Jaumet. Vejo que pensas com a cabeça. Recorda-te bem: vou deixar o desenho preparado, mas escondido. Não me falhes, Jaumet, e quando chegar a hora faremos a lápide a sério de Ventureta.
Jaume Cabret, As Vozes do Rio Pamano
Primeiro foi “Belleville Rendez-Vous”…
Não. Primeiro foi Há Festa na Aldeia / Jour de Fête, de Jacques Tati, há muitos anos já. Tantos que nem deu para apreciar grande coisa – era ainda criança. A revelação veio com As Férias do sr. Hulot / Les Vacances de Monsieur Hulot e O Meu Tio / Mon Oncle.
Muitos anos mais tarde, quando vi (e me deliciei) com Belle Ville Rendez-Vous / Les Triplettes de Belleville, não dei especial importância às imagens de Jour de Fête no filme de animação de Sylvain Chomet.
A relação está explicada na revista NS’ (Notícias Sábado – que acompanha o Jornal de Notícias) do dia 25 de Dezembro de 2010 onde, entrevistado por Rui Pedro Tendinha, Chomet fala do seu novo filme – O Mágico / L’Illusionniste (também de animação), com argumento de Jacques Tati de quem se diz o fâ número 1. A personagem do mágico é o próprio Tati feito desenho animado.
Como poderia não ficar apaixonado por este filme comovente, cheio de humor (por vezes âmago, é certo, mas humor, en tout cas) e desenhos belíssimos (Paris, Edimburgo, as paisagens da Escócia…)?
Chomet, O Mágico:
Tati, Mon Oncle:
Chomet, Belleville Rendez-Vous:
Ao contrário do que se passa com outros autores, é a respiração da escrita de Hélia Correia que me prende aos seus livros. De momento, a Adoecer (Relógio d'Água Editores).
Prefiro a palavra "respiração" a "música", embora estejam ambas presentes. Mas não a sinto como uma respiração marcada pela música: antes como uma respiração que é, ela própria, a música. Ritmo e melodia.
Para despertar apetites, deixo aqui dois pequenos excertos:
Pela grande janela de balcão podia ver-se, em tardes transparentes, o azul das montanhas muito ao longe. Mas nada do exterior os atraía. Caminhavam por dentro, sob abóbadas, seguindo o rasto que já lá se achava e que reconheciam como seu. Não lhes faltava multidão. A casa estava cheia de gente especialmente ruidosa, dessa que, não passando pela carne, tem, no entanto, a sua nostalgia e ocupa todo o espaço de um lugar. Personagens de Browning, Shakespeare, Tennyson, de Dante Allighieri, que aprendiam com os fantasmas a viver do sangue alheio, tornavam-se os convivas mais fiéis. E, desprezando como desprezavam as mais elementares leis da cortesia, penetravam no centro dos humanos, enchendo-os de murmúrio e sofrimento que nada eram, só palavras de palavras, mas que chegavam para enlouquecer.
[…]
A cidade vencia quase sempre e, neste caso, armou-se de doçura, mostrando a face da benevolência para que Lizzie e Gabriel se sentissem chamados a sair. Com canto igual ao das sereias os chamava. Pela porta da rua entreaberta entrava o som de vozes de mulheres oriundas de bairros respeitáveis a quem, por isso, Londres consentia certos comportamentos singulares.
Tinham nascido à frente da palavra que viria depois a designar o modelo das suas atitudes: feminismo. E, faltando-lhes um nome, como que lhes faltava a eficácia. A luta pelos direitos das mulheres parecia naquele tempo o resultado de uma inclinação hereditária. Mary Wollstonecraft, a mãe de Mary Sheley, que ainda afrontara o século dezoito, instilara na filha a convicção de que podia produzir alguma coisa, para além de crianças do seu ventre.
(pp 88 - 90)
Pintura de Dante Gabriel Rossetti, tendo sido modelo Elisabeth Siddal, a personagem principal do romance.
Nestes dias quentes, quando ao fundo do túnel já se vislumbra a escuridão e o fim de férias ainda não tem cheiro mas já é palpável, encontrei em L'écume des jours, de Boris Vian, as palavras de conforto que me vão faltar nos tempos que aí vêm:
«Dans la vie, l'essentiel est de porter sur tout des jugements a priori. Il apparaît en effet que les masses ont tort, et les individus toujours raison. Il faut se garder d'en déduire des règles de conduite: elles ne doivent pas avoir besoin d'être formulées pour qu'on les suive. Il y a seulemnt deux choses: c'est l'amour, de toutes les façons, avec des jolies filles, et la musique de la Nouvelle-Orléans ou de Duke Ellington.» (Avant-Propos)
«Il parlait doucement aux filles et joyeusement aux garçons. Il était presque toujours de bonne humeur, le reste du temps il dormait.» (1º capítulo)
Para fim de férias...
Nunca vou para lado nenhum que não leve algo para ler. Quase sempre um livro, mas reconheço que pode haver quem tenha outras preferências.
Hoje venho apresentar algumas propostas de leitura sugeridas em O Adivinho, de Goscinny e Uderzo (colecção Uma Aventura de Astérix, 3ª ed., Asa, 2009).
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De Digam-me como é uma árvore (dos cárceres franquistas à liberdade), de Marcos Ana, deixo, sem mais comentários, dois pequenos excertos:
Também quiseram arrasar a Cultura, porque esta fazia parte dos seus inimigos. É conhecida a história de Salamanca, o confronto entre Unamuno e o general Millán Astray, quando este gritou: Abaixo a Cultura! Viva a Morte!
A Cultura é uma eterna alvorada, sempre renascente e invencível. Mas tem poderosos inimigos, que vão com a morte às costas descarregando a sua escuridão sobre toda a luz que nasce ou permanece. Muitas vezes na História a Cultura foi sequestrada e queimada viva. Na Espanha de Franco triunfou o mais total obscurantismo. Foram queimados quadros, esculturas, censuraram livros e filmes, fuzilaram milhares de professores, artistas e intelectuais, uma lista interminável que podemos resumir no poeta Federico García Lorca. A Cultura é, acima de tudo, uma vocação de liberdade, uma luta que vem de séculos.
Marcos Ana, Digam-me como é uma árvore (dos cárceres franquistas à liberdade). Lisboa, Guerra e Paz, 2009. (p. 97)
Não sei quantos caminhos milagrosos abrem os presos na noite dos cárceres, mas a sua voz é invencível.
Como sobreviveram o manuscrito de Anne Frank e a Reportaje al pie de la horca de Julio Fucik (1) escrito no presídio de Pankrác?
Como perfurou a noite turca a palavra de Nazim Hikmet? Como chegaram à luz, vindos da sua cela de condenado à morte ou dos terríveis presídios de Palencia e Ocaña, os poemas de Miguel Hernández.
Por que fenda pôde Manuel de la Escalera, do seu calabouço de condenado à pena capital, fazer sair a sua Muerte después de Reyes?
Tenho agora nas minhas mãos um emotivo poema da viúva de Beloyanis cujo marido foi torturado e vilmente assassinado, e que ela me enviou do seu presídio da Grécia. O escrito teve de sair sub-repticiamente do seu cárcere, atravessar a Europa e entrar clandestinamente na prisão de Burgos. Por quantas mãos teve de passar este poema para chegar até mim?
Id. (p.100)
(1) Julius Fucik, Testamento sob a Forca. Edições Avante, 1975 (imp.)
Que impulsos nos fazem procurar um livro? Ou lê-lo? Há-os sérios e caricatos. A avaliação final dessa leitura, em função do motivo que a suscitou, pode também ser variada. Mas, o que me parece um ganho garantido de cada livro que se lê, são as janelas que abrem, as curiosidades que despertam, os novos mundos que se levantam “onde era só, de longe a abstracta linha” (1). Vem isto a propósito dos excertos de O Professor de Frank McCourt que aqui deixo.
Fui à Livraria O'Mahony para comprar o primeiro livro da minha vida, o que trouxe para a América dentro da mala.
Foi The Works of William Shakespeare: Gathered into One Volume, publicado pela Shakespeare Head Press, Oldhams Press Ltd. e Basil Blackwood, MCMXLVII. Aqui está ele com a capa a esboroar-se, a separar-se do livro, ainda presa a ele graças à fita-cola. Um livro muito manuseado, cheio de marcas. Há passagens sublinhadas porque, noutros tempos, tiveram um significado qualquer para mim, apesar de agora olhar para elas e não conseguir perceber qual. A par desses sublinhados, há notas à margem, observações, comentários elogiosos, felicitações a Shakespeare pelo seu génio, pontos de exclamação a indicarem o meu apreço e admiração.
[…]
O livro custou dezanove xelins, metade do salário de uma semana. Gostaria de dizer que o comprei por ter um profundo interesse em Shakespeare, mas não foi nada disso. Comprei-o por causa de um filme que tinha visto, onde um soldado americano passava a vida a declamar Shakespeare e todas as raparigas se apaixonavam perdidamente por ele. Além disso, basta dar a entender que lemos Shakespeare para as pessoas olharem para nós com respeito. Eu achava que, se aprendesse de cor grandes passagens, iria impressionar as raparigas de Nova Iorque. Já sabia aquele bocado que começa com «Friends, Romans, countrymen...» mas, quando o declamei a uma rapariga de Limerick, ela olhou para mim como se tivesse a dar-me uma coisinha má.
Quando ia a subir a O'Connell Street, apetecia-me abrir o embrulho e mostrar a toda a gente que levava um livro de Shakespeare debaixo do braço, mas não tive coragem. Passei pelo pequeno teatro onde uma vez tinha visto uma companhia ambulante representar Hamlet e lembrei-me da pena que tinha sentido de mim próprio por ter sofrido tanto como ele. Nessa noite, no fim da peça, o próprio Hamlet voltou ao palco para dizer ao público que tanto ele como o resto do elenco estavam muito gratos pela nossa atenção e que estavam todos muito cansados e agradeciam muito se pudéssemos deixar uns trocos na lata de banha que estava ao pé da porta, para os ajudarmos. Eu estava tão comovido com a peça por ter tanto a ver comigo e com a minha triste vida que deixei seis pence na lata e gostaria até de ter deixado um recado para o Hamlet saber quem eu era e como o meu sofrimento era real e não apenas parte duma peça de teatro.
No dia seguinte fui entregar um telegrama ao Hotel Hanratty e dou com o elenco todo de Hamlet a beber e a cantar no bar, enquanto um empregado corria para a frente e para trás a carregar a bagagem deles numa carrinha. O próprio Hamlet estava sentado sozinho ao fundo do bar a beber uísque e, não sei de onde me veio a coragem, mas fui cumprimentá-lo. Afinal, tínhamos sido ambos traídos pelas nossas mães e o nosso sofrimento era imenso. O mundo nunca iria saber como eu sofria e tinha inveja dele pela forma como conseguia exprimir a sua angústia todas as noites. Olá, disse-lhe, e ele olhou para mim com uns olhos muito negros por baixo de umas sobrancelhas também negras numa cara muito branca. Ele tinha aquelas palavras todas de Shakespeare na cabeça, mas, naquele momento, deixou-as lá ficar, e eu corei como um pateta e tropecei nos meus próprios pés.
Subi a O'Connell Street na minha bicicleta, num estado deplorável. Depois lembrei-me dos seis pence que tinha deixado na lata de banha e que estavam a servir para pagar as bebidas e as cantarias deles no bar do Hanratty e apeteceu-me voltar para trás e enfrentar todo o elenco e o próprio Hamlet, dizendo-lhes o que pensava das suas falsas histórias de como estavam cansados e de andarem a gastar o dinheiro dos pobres em bebida.
[…]
Os meus alunos disseram que, sem desrespeito, tinha sido uma parvoíce gastar tanto dinheiro num livro de Shakespeare e, se o que queria era impressionar as pessoas, por que é que não tinha ido a uma biblioteca e copiado as citações todas? Além disso, era preciso ser-se muito parvo para ficar impressionado com um tipo só porque ele sabia citar um escritor antigo que já ninguém lia. Às vezes dão peças de Shakespeare na televisão e não se percebe uma palavra, por isso nem vale a pena. Podia ter gasto o dinheiro que paguei pelo livro numa coisa mais fixe, como uns sapatos ou um casaco bonito ou até levar uma rapariga ao cinema.
Algumas raparigas disseram que era muito fixe a forma como eu usava Shakespeare para impressionar as pessoas, mesmo sem que elas soubessem do que eu estava a falar. Porque é que Shakespeare tinha de escrever naquela língua antiga que ninguém percebe? Porquê?
Não soube responder. Eles tornaram a perguntar, Porquê? Senti que tinha sido apanhado em falso, mas só consegui dizer-lhes que não sabia. Se esperassem, eu tentaria descobrir. Olharam uns para os outros. O professor não sabe? Como é que é possível? Este homem existe? Uau! Como é que ele conseguiu ser professor?
Tem mais histórias, professor?
Frank McCourt, O Professor. Lisboa, Editorial Presença, 2009. 49-52
(1) “Linha severa da longínqua costa – / Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta / Em árvores onde o Longe nada tinha; / Mais perto abre-se a terra em sons e cores: / E, no desembarcar, há aves, flores, / Onde era só, de longe, a abstracta linha.” (do poema Horizonte, in Mensagem de Fernando Pessoa)
Li no jornal que Spielberg se lembrou de Tintin para o seu próximo filme (a incluir numa trilogia), com estreia prevista para Outubro de 2011.
É, evidentemente, um direito que lhe assiste, mas quando penso noutros exemplos de heróis de banda desenhada substituídos no ecrã por figurões-de-carne-e-osso, tenho um pressentimento de que mais uma vez o papel vai ficar a perder: a luta entre quadradinhos e quadradão é desigual e já encontrei quem pensasse que Christian Clavier e Gérard Depardieu eram os genuínos Astérix e Obélix, inspiradores das bandas desenhadas de Goscinny e Uderzo.
É claro que a culpa não é quem faz os filmes e sempre houve bons e maus filmes independentemente de terem sido realizados a partir de guiões escritos para esse efeito ou adaptados de obras literárias ou bandas desenhadas. O que me incomoda, é a sensação que eu tenho, ao ver esses filmes, de que a essas histórias é roubado aquilo que as torna especiais — serem desenhadas.
E já agora, e se fosse Hergé a escrever e desenhar Spielberg? Claro que já é tarde para podermos ler essa aventura de Tintim em Hollywood, arranjei uma amostra para suprir esse lamentável desencontro.
Bom ano de 2010.